Terça-feira, Novembro 3

A ausência e o caminho a seguir.

A quem por aqui ainda passa eu quero agradecer: obrigado. A quem por aqui ainda passa também ter-se-á apercebido da minha ausência. Eu só lamento não ter reconhecido antes que não sou talhado para isto de ser critico e dar a conhecer com cuidado tudo aquilo que gosto. E em relação a tudo aquilo que faço parece acontecer outro fenómeno: tudo o que crio precisa de fermentar, em mim, com o tempo. Só meses depois posso oferecer esse pedaço ao mundo, já confiante que a peça merece os olhos de outrem ou deixá-la a fermentar mais uns anos.

Lamento não ficar por aqui, mas não vos deixo, e no que vale os meus trabalhos vão estando actualizados no meu portfolio, e para quem gostou deste formato estou a tentar uma pequena aventura no tumblr, bem mais descontraída e descomprometida. E não se esqueçam do meu pequeno canto de sempre, onde espero levar vida de novo.

Obrigado pela vossa companhia,
sempre.

Quinta-feira, Agosto 20

diário gráfico #15

Sábado, Agosto 15

viseu, torres vedras.

fiz uma viagem longa para chegar aqui e no entanto não sei onde paro. meti-me no carro e segui um pouco à deriva, quase me deixei adormecer a pensar como serias, receio ter adormecido duas vezes, por escassos minutos. quando acordei era ainda viagem e era ainda a auto-estrada a roer-me os sentidos com o vento a dar no rosto. fecha a janela, mãe, disse. começava a irritar-me a garganta e assim seria difícil concentrar-me na tua imagem. imaginar é um processo demasiado introspectivo, acabo sempre em lugares que não conheço, ao despertar. onde estou hoje?

lembro-me perfeitamente de entrar no carro e segurar-te a mão, combinámos um destino à pressa e partimos, conduzi durante algumas horas mas pareceram poucas - tu encurtava-las pousando a tua mão sobre a minha e esboçando um ocasional sorriso.

estacionei à entrada de uma casa centenária, mero acaso. espreguiçámo-nos ao sair do carro e eu deitei o olho sobre o teu umbigo que se revelou um pouco quando ergueste os braços e a camisola subiu, tens uma pele muito branquinha. subimos a rua em direcção centro e tiraste algumas fotografias, dezoito fotogramas para ser preciso, antes de nos sentarmos num parque. falámos pouco. penso que não seremos de muitas palavras, ou talvez sejamos apenas economistas certeiros. gosto de estar contigo, sussurro sem ter a certeza se chegaste a ouvir. ficámos por lá mais quinze minutos.

fecha a janela, mãe.

subiste até ao ponto mais alto do castelo e apontaste o horizonte, eu olhei antes a ponta dos teus dedos e recordei a forma suave de ser das tuas mãos. disseste: gosto muito da cidade vista daqui, luís. olhei então para a cidade: árvores rompiam entre casas e ruelas onde vagueavam pessoas como fosfenos. uma brisa súbita fez o teu cabelo esvoaçar como num filme, gostei muito de ti nesse momento, mas resisti ao impulso de dizer que gostaria de viver contigo, afinal somos verdadeiros aplicantes da economia das palavras.

tenho o braço dormente e à minha frente alguns quilómetros de estrada, só depois o destino. agora. o destino é este, praia e mar, já entardece e o sol começa a sua viagem descendente para o precipício do oceano. onde pára afinal o castelo que falou a suavidade das tuas mãos?

Terça-feira, Julho 28

post-it #2

post-it

Segunda-feira, Julho 27

diário gráfico #14

Domingo, Julho 26

Cláudia Faro Santos.


dia 17 (2009), Cláudia Faro Santos.


Gostava de dizer que a minha fotografia foi influenciada por grandes nomes como Brassaï, Sebastião Salgado ou Elliott Erwitt, mas a verdade é que a minha forma de ver está mais relacionada com aqueles com quem cresci do que aqueles que fui conhecendo.
O trabalho da Cláudia e todos os dias que passamos juntos a fotografar são muito provavelmente a maior contribuição para a minha visão actual.
A sua atenção ao detalhe, a forma simples como sente as coisas e como as enquadra sempre se mostraram encantadoras e desde então a nossa fotografia cresceu junta.
Recentemente, e depois de um longo interregno com a imagem, a Cláudia decidiu começar um 365 - para quem não conhece, trata-se de um projecto em que se propõe tirar uma fotografia por dia durante um ano - já passou a barreira de um mês e continua a crescer. Eu convido-vos a visitarem o seu espaço e a deixarem um comentário, que bem merece.

Sábado, Julho 25

instante.

polaroid de um instante

há instantes que só pertencem à mistura entre sais de prata e outros químicos reveladores.

Sexta-feira, Julho 24

Punch-Drunk Love.

punch-drunk love

Punch-Drunk Love, não é o melhor filme de sempre, mas merece um digno registo. Ainda para mais sabendo que o autor principal é interpretado Adam Sandler, que pelos vistos eu andava a desvalorizar pois consegue neste filme uma interpretação muito boa de Barry Egan, um homem com alguns problemas em socializar, traumatizado pelas suas sete irmãs e que pode ocasionalmente ter acessos de raiva, mas que na realidade tem consciência de si mesmo e procura um pouco de conforto.
Acaba por ser um bom argumento, dirigido por Paul Thomas Anderson que foi nomeado, com esta obra, para uma palma de ouro e venceu o best director da edição de 2002 do Festival de Cannes. É um daqueles filmes para se ver numa tarde relaxada de Domingo, sem que seja desperdiçada.

Quinta-feira, Julho 23

Jens Lekman.





Começo a achar, com manifesta certeza, que parte da magia dos concertos se constrói na viagem que nos leva até eles. O percurso de comboio, a noite anterior com o peito a fervilhar em antecipação, as conversas ternas, os sorrisos cúmplices.

Jens Lekman ficou prometido para se mostrar em dois sítios: Salão Brazil, em Coimbra e Maus Hábitos, no Porto, eu escolhi ir ao primeiro. O Salão Brazil poder-se-á dizer que é um espaço neutro, não muito moderno, alojado numa casa antiga na baixa de Coimbra, mostrou-se na noite de 17 de Julho exactamente isso: um salão, bar ao fundo, palco num canto e largas janelas paras a ruelas iluminadas pela luz laranja dos candeeiros.

Antes de subir ao palco Jens Lekman veio a australiana Pikelet, uma menina baixinha de óculos que apesar dos problemas com o som conseguiu entregar uma boa performance em sons que se construíam por loops e repetições até chegar finalmente à voz, podem ouvir um pouco dela no myspace.

Perto da meia noite, vinte minutos depois de Pikelet, chegou finalmente Lekman. Com flores estampadas na camisa, apareceu descontraído e lá agradeceu a todos a coragem por estarem presentes, numa breve referência à gripe A que contraiía umas semanas antes. O concerto desenvolveu-se fluído, as músicas convidavam a dançar e Jens esteve sempre muito comunicativo envolvendo o público em todo o espetáculo. A este aspecto reconheço dois pontos altos: em primeiro, o momento que Jens convida uma pessoa do público para traduzir um dos seus temas, o que acabaria por ter um resultado hilariante. E em segundo quando decidiu pedir à audiência que mantivesse uma pena no ar durante toda a canção. Maldita pena. O concerto terminou depois de dois encores com a voz de Jens a falhar perante um público que continuava a pedir só mais uma, só mais uma.

Mesmo horas depois, as músicas continuavam a ressoar no peito, já deitado sobre o tecto branco da residencial. Isso terá sido a simples confirmação que aquele fora um dos melhores concertos a que já assisti.

Domingo, Julho 19

post-it #1

post-it

Domingo, Julho 12

Deolinda.







(click sobre o desenho para ver completo)


Deolinda não surge hoje como novidade para ninguém, eles é presença em festas académicas, nos maiores festivais de verão, ou num par de locais mais alternativos, passagens pelo estrangeiro e o pavilhão multiusos de Viseu.

O reencontro foi no passado Domingo, mas para qualquer reencontro conta antes a primeira impressão, e essa aconteceu à quase um ano atrás, dois dias depois do lançamento do disco de estreia que é actualmente dupla platina - Canção ao Lado. Os Deolinda vinham até Viseu para uma pequena apresentação do seu álbum no espaço da Fnac, propositadamente para os ver estava eu, que os vinha escutando fazia um ano, e outro rapaz, o resto foi a alegria da banda que juntou um grupo de cerca de 30 pessoas que aplaudia intrigado o final de cada tema "Quem são estes? Ela têm uma grande voz, são muito bons." No final do espectáculo Ana, Pedro, Zé e Luís conversavam acanhados sobre a performance e a viagem, quis felicitá-los pela música. A conversa pegou e acabei com o diário gráfico assinado em elogios e um convite para os visitar na grande estreia em Lisboa que acabaria por não puder aceitar.

Os meses foram-se acumulando e os Deolinda, como se previa mas não acreditava que fosse possível, cresceram para agradar às mais variadas facetas de Portugal e até do estrangeiro. Cá por casa, continuavam os temas em loop pelo quarto, até que só no Domingo passado tive a oportunidade de os rever.

E que crescidos que estão. Não o digo literalmente, a vocalista Ana Bacalhau continua pequenina e querida, mas a energia que libertam é ainda maior e vê-los esgotar um pavilhão inteiro é obra. Encheram-me de orgulho. Depois começou o espectáculo e encheram-me de música e alegria e nostalgia e amor e orgulho de novo. Cantei todos os temas que conhecia e surpreenderam-me com alguns novos e uma cover de É ou não é - de Amália Rodrigues - que não fica nada a dever ao original.

Depois de um encore em êxtase, levantando todo pavilhão, que já dançava, aplaudia, cantava, lá digeri um pouco do que se viveu com os cotovelos assentes sobre as grades que separavam o espaço público do backstage. Ao lado do palco preparava-se uma mesa com quatro cadeiras para uma sessão de autógrafos, ao meu lado meia centena de pessoas aguardava a chegada da banda. Eu não procurava autógrafos, mas antes dizer-lhes que sinto orgulho do que fazem. Esperei o tempo necessário de algumas assinaturas para, por fim, poder dizer-lhe que é bom tê-los de volta a Viseu. Melhor ainda foi sabê-los recordados do último encontro, "És o rapaz dos desenhos, o Luís, não é?", "Sou sim". Pelo que se impôs que desta vez fossem eles os meninos dos desenhos. O resultado está aí em cima, esboçado pelos quatro, um pouco atrapalhados com o desafio, (podem clicar para ampliar e ver completo).

Os Deolinda são já apelidados como grupo do novo fado, mais energéticos mas mantendo as raízes conseguem músicas extraordinárias. No entanto o que quero salientar neste grupo é a simplicidade com que vivem todo o sucesso que por mérito próprio alcançaram e a humildade com que o aceitam. Parabéns, meninos e menina, continuem a brindar-nos com o vosso fado, que o fado não é mau, pois não!

Domingo, Junho 21



perdi a poesia das coisas normais.

Quinta-feira, Junho 18

diário gráfico #13

Quarta-feira, Junho 17

José Luís Peixoto, Ensaio.

"(...) E, apesar de já ter escrito eu precisava tanto de
ouvir o fascínio que disseste, não seria capaz

de admitir que era esse simples que queria,
e tu também não, embora fosse esse mesmo

simples que quisesses. E ambos teríamos
a certeza omnipotente de nos conhecermos.

Felizmente, nada disso foi necessário porque
eu estava a ser apenas uma parte de mim,

tu estavas a ser apenas uma parte de ti
e as luzes eram prováveis, como reticências."

Ensaio, de José Luís Peixoto, em Gaveta de Papéis.

Domingo, Junho 14

película sensível #6

Sexta-feira, Junho 12


















vivia de águas distantes no tempo. a planície seca estendia-se por quilómetros, apenas luz. aleatoriamente, como pontos negros, cresciam cactos minúsculos.

um par de pegadas criava um padrão assimétrico em redor de um cacto, pouco maior que os outros. a silhueta inquieta continuou em círculos, olhando-o. imobilizou-se mais tarde – estátua até ao entardecer – deixou finalmente escorrer uma lágrima.

Quinta-feira, Junho 11

diário gráfico #12

Segunda-feira, Junho 8

the auteurs.

the•au•teurs
-n. [thē ō-tûrs', thē ō-tœrs']
1. an online movie theater
where
you watch, discover,
and discuss
auteur cinema.
2. a new social experience.


the auteurs define-se bem, mas posso acrescentar algumas notas: ali existe um registo enorme do cinema de autor, com criticas de utilizadores e até a opção de visualização de alguns filmes. Está bastante actualizado, ao ponto de ter já o registo de filmes que ainda não estrearam no cinema, mas é informado ao ponto de não deixar de fora clássicos como 8 1/2, The Cabinet of Dr. Caligari ou A Clockwork Orange. Para quem quer estar a par do cinema de autor é provavelmente uma das melhores ferramentas da internet, mas se souberem de outras eu gostaria de saber!
E não deixa de ser interessante reparar que se pesquisarmos os filmes pela rating, dois dos três primeiros classificados são portugueses, um bom aviso para não descurar a produção nacional.

Quinta-feira, Junho 4

um poema hipertextual.



“pestana de fogo: linfócito” é um poema hipertextual que surge como produto de um projecto multidisciplinar concebido em regime colaborativo pelos artistas luís belo e bruno santos.

através da exploração de uma linguagem interdisciplinar e multimídia que se vai fundar nos alicerces da poesia experimental e do design e artes plásticas, “pestana de fogo: linfócito” pretende criar uma linguagem híbrida e fundacionalmente labiríntica, condizente, de resto, com aquilo que os autores defendem ser a natureza do próprio Texto (seja ele composto por signos linguísticos, por signos pictóricos ou pela matéria híbrida que aqui se pretende projectar).

a proposta deixada aos/às leitores/as (também eles/as em regime de colaboração para criação da obra “final”, através da interactividade exigida) é, então, a de construção do seu próprio cosmos poético através da escolha de caminhos a seguir no deambular pelo corpo do poema que se vai desdobrando, mediante a interacção com o leitor-criador, em múltiplos e sucessivos universos paralelos.

pelos artistas de ignição
:                                 
luís belo
bruno santos

de novo, a visita aqui.

Terça-feira, Junho 2

diário gráfico #11

ela, a menina do violino.